quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Horizontalidade nas relações entre colaboradores e gestores

Existe em nosso arquétipo social um desejo inerente de poder que se projeta na ambição de mandar em alguém. Há uma luta interna do homem; em nosso inconsciente subjaz uma centelha perniciosa que luta na escuridão de nosso íntimo para acender a chama do poder autoritário, cuja atitude está vestida de um perfil de ditador, e não, de alguém que se encontra investida de autoridade.

Não há dúvida de que sentimos um prazer excêntrico quando emitimos ordens, mais prazer ainda quando são consequentemente cumpridas. Esse prazer é inerente à condição humana, a qual somos fadados a carregar por nossa existência. Entretanto, por mais que se acredite ser natural tal sentimento, cabe ao homem pensante refletir a respeito do desejo de dar ordens aos outros. A atitude, portanto, deve ser repensada, sobretudo quando estamos no âmbito da administração pública; mais ainda quando nos tornamos gestores de uma escola.

Aquele que esteja inoculado pelo veneno do poder de dar ordens não tem senão vaidades em suas intenções de dirigir os outros, quando na verdade deveria ter a preocupação última na gestão escolar a defesa de suas vaidades. Na escola a vaidade deveria perder espaço.

O perfil acima é de um sectário do autoritarismo, muito se assemelhando em certas oportunidades a um ditador microfísico, se estamos nos referimos à escola. O “mandão” se vê sempre no topo, olhando para baixo, acreditando inocentemente ser ele o “escolhido” por Deus para retirar seus subordinados incultos da lama da incompetência; aliás, ele jamais erra.

Na contramão dessa tendência que lugubremente persiste, surge o gestor moderno, surge o líder de equipes. Este novo perfil faz o caminho inverso daquele outro suposto gestor (o autoritário), ele inova porque em vez de escalar a cabeça dos outros, simplesmente “faz um rapel”, desse do topo da montanha, põe-se diante de seus colegas de trabalho olhando em seus olhos, convidando-os ao trabalho.

O gestor moderno é um líder de equipes, jamais ditando ordens, mas sugerindo tomadas de posicionamento ante a tarefa devida. Muitas vezes – diria quase em sua totalidade –, o gestor moderno não impõe ordens, mas argumenta de modo convincente e cortês a respeito de sua posição quanto a uma tarefa ou problema, sugerindo caminhos e discutindo-os sobre eles. Agora, o gestor está no mesmo nível, ele pisa a mesma trilha árdua de seus colegas de trabalho, estes, não mais subordinados, mas seres humanos imbuídos da mesma tarefa da qual o administrador público gestor está: a de fazer funcionar eficientemente a coisa pública, em nosso caso a escola.

Esse novo gestor implica estar onde os demais colegas estão; tratando-se da escola, ele deverá estar onde as coisas diárias acontecem, ou seja, circular pelas dependências da escola, mas sem a arrogância do vigilante inquisidor; estando disposto ao diálogo, à orientação constante, à conversa amigável, a ajudar o outro na tarefa que não está desempenhando bem naquele instante.


Por tudo isso, tem-se que o outro (antigo subordinado), em relação ao gestor, torna-se atualmente colaborador da tarefa árdua de gerir a escola; desse modo, portanto, as relações, antes pautadas pela hierarquia de degrau – eu estou lá em cima da pirâmide, logo sou o faraó! – regem-se neste século pelo olhar desnudado de arrogância e direto aos olhos do colaborador numa linha horizontal de respeito, estando todos igualmente no “chão de fábrica”.

Fonte das imagens: http://www.ibccoaching.com.br/portal/lideranca-e-motivacao/os-reflexos-de-um-lider-autoritario-na-organizacao/#; http://www.mundodastribos.com/como-nao-ser-um-lider-autoritario.html; http://www.jornaldoempreendedor.com.br/destaques/lideranca/o-que-os-estilos-de-lideranca-realmente-significam/; http://silviabez.com.br/o-lider-democratico-ou-inovador/.

sábado, 19 de novembro de 2016

Literatura, História da Literatura e Leitura

Educadores em geral e especialmente professores, quase sempre são categóricos em afirmar que o estudante comum não gosta de ler e não se interessa pela leitura como acreditam que deveria. Certamente são clichês tão repetidos que muitas vezes dispensam uma reflexão mais apurada daqueles que a proferem.

Não obstante que tal constatação tenha um peso de verdade considerável, deve-se repensar o problema existente entre o jovem – aqui faço um recorte para os alunos do ensino médio – e o gosto pela leitura.

Inicialmente, é essencial mencionar que o desempenho da escola como meio institucional de entusiasmar o aluno na prática da leitura é desestimulante até para o professor de Língua Portuguesa; por isso não se precisa de muito para constatar que a atribuição da escola nesse aspecto fracassa clamorosamente, o que ocorre na verdade é a imposição ao aluno da leitura de certos textos aceitos como obrigatórios, quando a contrapelo deveríamos plantar nele a atitude espontânea pela prática da leitura.

Desta situação, a meu ver, resultam dois pilares que susteriam o fracasso escolar no mais alto nível de ineficiência. O primeiro pilar é o modus operandi da famigerada matéria Literatura nos bancos escolares. A Literatura ensinada nas aulas não possui qualquer correspondência com a tarefa de formar novos e competentes leitores, pelo contrário, ela é um peso e um assombro que persegue o aluno por três longuíssimos anos em uma de suas mais produtivas épocas de sua vida, por esse motivo que os próprios alunos se desesperam ante a imposição de tal disciplina.

O que temos na escola indubitavelmente não é o ensino da Literatura, mas sim a educação pela história da literatura. Deveríamos comutar o nome da matéria de Literatura para História da Literatura, este mais concordante com o conteúdo ministrado. O estudo aprofundado dos movimentos literários anda de mãos dadas com a disciplina História. Não compreendo que a História da Literatura não tenha seu valor, contudo, atribuí-la tamanha importância como se tem feito seria um equívoco, isso se o propósito seja estimular o aluno à leitura. Para oferecer ou solicitar ao aluno certas leituras, precisamos de um plano de leitura que considere a maturidade dele. O professor deveria conhecer seus alunos antes de solicitar leituras que pouco espelham a maturidade intelectual e física do próprio aluno. Então, como cobrar dele uma leitura de época? Talvez a resposta seja não cobrar. O termo cobrar já seria quase uma ofensa para se referir à tão nobre prática: a leitura. A oferta de livros que correspondam a movimentos literários deve ser feita pelo professor de modo a considerar a especificidade e peculiaridade de cada um, abandonando a temerosa prática da escolha de um livro por classe ou grupo de alunos, por bimestre, por mês etc.

Provavelmente me questionariam a respeito da preparação dos alunos para a leitura direcionada à submissão de exames vestibulares. Esse tipo de cobrança não há respaldo na realidade, é uma cobrança hipócrita e, a meu ver, de critério duvidoso. Por quê? Porque inúmeros alunos leem somente o bom resumo dos livros e estudam breves comentários a respeito dos enredos e características literárias em compêndios de literatura, manuais, sites, blogs, vídeos de internet e muitos outros meios. Ou seja, não há sentido nessa prática para desenvolver-se o prazer da leitura nos alunos.

O ensino médio, segundo os parâmetros preconizados pelo MEC, assim como por especialistas, deve formar alunos que possam exercer sua autonomia, seu senso crítico, sua capacidade de interferência na realidade, e também que estejam aptos a se desenvolverem sozinhos. Nesse sentido, o papel da escola, fomentado pela História da Literatura e por programas de leitura específicos, é estruturar o aluno a partir de seu desenvolvimento intelectual, para que ele sozinho faça suas escolhas literárias futuras.

Posto isso, a Literatura – não a História da Literatura – seria a denominação, um hiperônimo de um conteúdo moldado para ampliar o contato do aluno com a leitura cultural de textos literários, tendo como espécies a Leitura e a mencionada História da Literatura. Dentro da Literatura como compreendo não importa o movimento literário ou o título do livro, mas sim sua importância em relação ao público que tomará contato com o texto propriamente dito. Estará a cargo de o professor oferecer leituras significativas para seu alunado, tarefa esta que confesso ser delicada e um tanto árdua, pois haverá de se defrontar com o que seria supostamente significativo para seus alunos, levando em conta o critério da particularidade de cada um deles.

Em função da reflexão até aqui exposta, a leitura por si só defluiria naturalmente das boas práticas direcionadas para o contato do aluno com textos literários significativos, aguçando a curiosidade dele. Por consequência, o escopo seria incutir no aluno o desejado entusiasmo pela leitura, em razão da reiteração do contato com bons textos e adequados a suas particularidades de desenvolvimento intelectual.

Portanto, a História da Literatura expõe ao aluno os movimentos literários de nossa cultura desde o descobrimento do Brasil – ou antes – até a contemporaneidade, sempre dialogando com a História, a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia, a Geografia, a Psicologia. Por sua vez, a Leitura – podendo ser um projeto escolar – seria o meio pelo qual o aluno desenvolveria seu gosto literário, aperfeiçoando-o continuamente e sendo preparado para exercer sua autonomia literária em um contexto social adulto.

Fonte das imagens (por ordem): 1. http://www.correiodosmunicipios-al.com.br/2016/06/espaco-mila-incentiva-novas-abordagens-de-aprendizagem-e-de-leitura/ 2. http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/literatura/ 3. fonte não confirmada, pesquisada no Google imagens.


sábado, 23 de abril de 2016

O Banquete - Platão

PLATÃO. O Banquete. Trad. Donaldo Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2011, 176 pp.

Por acaso seriam os livros de filosofia maçantes? Muitos leitores provavelmente não curtiriam se entregar à leitura de um livro de filosofia, muito menos se o livro se tratar de um pensador da Grécia antiga. Algo que está muito distante em relação ao leitor do século XXI.

Entretanto, o que ocorre em diversas situações é que se planta nos leitores uma pré-indisposição à leitura de livros que exijam mais do intelecto do que o mero correr de olhos pelas letras. Inclusive os professores de Filosofia e Literatura atuam contra a promoção da leitura, porque desencorajam a aventura nesse mundo intelectual incutindo na cabeça dos estudantes que tais livros demandariam do leitor certa atenção inalcançável pelo estudante atual, impregnado de outras ideias e distrações.

Talvez, essa atenção exigida nunca teria havido entre os estudantes. São pouquíssimos os jovens que amadurecem precocemente para mergulhar em um universo rico de abstrações e associações. Porém, o desencorajamento dos anos verdes do leitor não pode ter a força de incutir no leitor mais maduro ojeriza pela leitura de livros como o que aqui apresento. Este está pleno de elementos interessantíssimos, cujo leitor mais curioso e arguto desejará conhecer por sua própria leitura e percepção, e não somente por filtros de estudiosos.

Em O Banquete, por exemplo, o enredo do festim possui muitos elementos proibidos, silenciados por professores advertidos, uma vez que se viam em um passado próximo pressionados por uma sociedade moralista cujas raízes ainda persistem em verdejar. Modelo disso é a relação homossexual comum aos gregos.

No livro de Platão, Eros (deus da mitologia grega) é o centro da discussão. Aliás, quase me esqueci de mencionar, o banquete ocorre na casa de Agaton em razão de sua vitória na competição de tragédias gregas. Nesse banquete, é proposto que cada conviva exponha sua compreensão sobre as faces de Eros, pois acreditam que um deus tão importante ainda não recebera louvor à altura de seu fausto.

Há dois aspectos que me seduziram durante a leitura. O primeiro se refere ao comportamento daqueles gregos. Muito das características da sociedade ateniense está presente. Por exemplo, a relação do erasta e do erômeno. O erasta é o homem que enamora geralmente um rapaz mais jovem, o erômone; dessa relação se extrai sutilmente o que seria o amor platônico. O prazer entre esses homens é mais importante que a própria relação com a mulher, a qual era relegada aos afazeres serviçais e à procriação. Essa relação homossexual é desenvolvida indiretamente no contexto do encômio a Eros. Interessante ainda notar que Diotima (sacerdotisa não presente ao banquete) é uma mulher que lança luz à discussão através de seus ensinamentos transmitidos a Sócrates e, consequentemente, levados aos convivas, mas também filtrados pelo pensamento socrático. Ironicamente, a figura da mulher em que não se dá grande importância é aquela que contribui de forma decisiva à discussão dos homens.

O segundo aspecto trazido à baila é o procedimento socrático de pensamento e o estoicismo de Sócrates. O método questionador de Sócrates, de fazer perguntas constantemente a seu interlocutor para se chegar pela dedução à verdade é posto em prática no banquete. Trata-se da maiêutica. De outro modo, o estoicismo está na fala de Alcibíades (político), que tentou seduzir diversas vezes Sócrates, porém este, na fala de Alcibíades, desprezou-o. O político se irrita em saber que mesmo sendo belo e possuindo fortuna e influência, Sócrates, dito feio, não o quis. Aqui, o ápice dessa frustração é perceber que Alcibíades se erotiza pelo interior do filósofo, quando seria a beleza exterior a que capacitaria ao amor erótico (este na concepção grega); para tanto, Platão constrói uma metáfora inteligente para firmar a imagem de Sócrates.

Além de tudo, O Banquete possui uma leitura agradável, cujo tradutor soube fazer uma releitura contemporânea do texto sem perder a beleza da linguagem. O contrário do que se pensa, é um texto de facilidade razoável de compreensão, auxiliado pelas notas do tradutor, sempre pertinentes. Mais fez o tradutor: a título de apoiar o leitor, Donaldo Schüler escreveu ótima nota para o início da leitura e anexos sobre cada conviva, com o fito de colaborar com a reflexão do próprio leitor a respeito da obra.

 P.S. 1: no filme Troia, Aquiles se lança novamente à guerra contra os troianos após saber que seu primo Pátroclo fora morto acidentalmente por Heitor. Na verdade, Aquiles é enamorado de Pátroclo. Aquele é erômeno deste, que é erasta e, por isso, mais velho. Aquiles se torna grande herói porque exerce a vingança em nome de um erasta que não pode mais retribuir favor algum. Situação essa inédita para um grego que vivia naquela época. Leia o livro que entenderá com mais lucidez o que digo.


P.S. 2: ainda sobre o filme Troia. As mulheres machistas e os homens machistas não aguentariam assistir a Brad Pitt desejar outro homem. Hollywood vendeu o filme enaltecendo o corpo trabalhado de Brad Pitt, a fama de “gostosão” desejado pelas mulheres e invejado pelos homens não poderia ser maculado. O filme alcançaria a bilheteria desejada se o homossexualismo fosse apresentado naturalmente como na Grécia antiga? O investimento era alto para se tornar alvo de crítica popular. A crítica acadêmica, do ponto de vista econômico, é irrelevante para Hollywood. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Felicidade, Felicidade do Outro e Autoajuda

Fonte da Imagem*
Zygmunt Bauman, em entrevista ao Café Filosófico (Canal do You Tube CPFL Cultura), disse que Sócrates teve uma vida feliz porque ele estabelecera sua própria felicidade com base na vida que escolhera para si. Modernamente, analisando o comportamento do homem contemporâneo, percebe-se que as pessoa buscam viver a felicidade do outro. O caminho que é escolhido é aquele que uma pessoa supostamente trilhou para alcançar a própria felicidade. Famílias e amigos impõem seus conceitos de felicidade e sucesso. Para a maioria, felicidade e sucesso estão diretamente relacionados a meios de ganhos financeiros altos, o que gera frustração mesmo a pessoas residentes em países mais desenvolvidos economicamente. Por exemplo, no Japão, o índice alto de suicídio é notoriamente conhecido, entretanto, é uma nação que goza de muita prosperidade material.

Verdadeiramente, percebe-se um movimento de busca pela felicidade partindo da hipotética felicidade de alguém, quando notamos que pretendemos seguir modelos desse sentimento tão desejado desenvolvidos por pessoas alheias a nossa realidade. No Brasil, muitos não questionam mais - sendo um pouco finalístico - se a profissão escolhida completaria plenamente o indivíduo. Por isso o sucesso dos preparatórios para concurso público. Qualquer cargo que me traga segurança financeira e empregatícia trará felicidade, independente daquilo que se faça como trabalho. A zona de conforto profissional é o Éden.

Leandro Karnal, falando ao programa Café Filosófico, diz que a autoajuda traz a felicidade somente para aquele que escreve, pois enriqueceria com a venda de livros. Essa percepção está apoiada no pensamento de que desejamos fórmulas prontas para equacionarmos nossos problemas com soluções miraculosas vendidas por escritores de autoajuda. Ora, por que então acreditamos nos "9 passos" para a felicidade da pessoa de sucesso? Karnal explica que as pessoas são levadas a acreditar que podem tudo, que se amam ao extremo, pois não se amar é não ter autoestima, assim como não ser um investidor de sucesso no mercado de ações deriva de sua não dedicação, ou melhor, de dedicação insuficiente. Disso conclui-se que o autoajudado pode tudo. Para tanto, nos tornamos super-homens? Não. A questão é que não mais admitimos que não sejamos aptos à determinada tarefa; isso seria assumir que se é fracassado, e não saber lidar com o fracasso nos infantiliza, na medida que somos mimados a aceitar somente o sucesso, aberto a todos, dependendo apenas de uma atitude positiva. Em razão de tudo e em consequência, deixamos de exercitar a humildade, o que está sendo apontado pela vertente do pensamento da autoajuda como um traço da personalidade defeituosa do fracassado.

Do exposto, percebe-se dois males do século XXI. Primeiramente, vivemos a felicidade do outro porque não nos entendemos capazes de assumir e fazer escolhas próprias. Segundo, somos levados a acreditar que podemos qualquer coisa, basta seguir alguns "passos" ou acordar pela manhã e declamar o mantra "eu posso, eu sou lindo, eu sou inteligente, basta eu querer, que é poder". A experiência, para alguns mais atentos, mostra exatamente o contrário. Evidentemente que uma atitude ativa em relação à vida é importante para que nos movamos e alcancemos o sucesso sonhado. Apenas nos mover é uma atitude positiva, frisa-se.

E o segredo para alcançar a felicidade, qual seria? Certamente não é viver a vida do outro, por isso Sócrates nos é um bom exemplo. Por outro lado, a artificialidade do pensamento d autoajuda que, sem análises mais complexas, revela uma superficialidade de argumentos até certo ponto infantis, não se mostrou palatável. Embora os livros desse segmento sejam campeões de venda, não trouxe a plenitude da felicidade desejada. Portanto, este também não seria o caminho.

Não há segredo para a felicidade. Não é pretensão deste texto apontar soluções. Falta-me capacidade intelectual e espaço para discutir o assunto. Ademais, se procedesse de modo a oferecer a fórmula da felicidade, escreveria um livro de autoajuda e enriqueceria. Entretanto, inclino-me a dizer que se conhecer (Sócrates), assumir as escolhas de modo a afastar as influências totalitárias de terceiros e ser corajoso apara assumi-las sabendo que haverá perdas e infelicidade, talvez sejam atitudes e caminhos mais maduros para caminhar mais feliz com vida. Ressalta-se que o entendimento de felicidade somente existe por contraste. E a experiência da tristeza (infelicidade) nos ensina o significado empírico da felicidade.

Lembremo-nos de que somos indivíduos em nossa individualidade no sentido da bela particularidade que nossa potencialidade humana nos permite, como também exercemos essa individualidade e todos seus atributos em uma sociedade, esta é uma projeção íntima de nosso entendimento de coletivo. Sentir-se feliz, talvez, esteja mais relacionado com a particularidade e o direito de ser também infeliz. A tristeza nos orienta sempre no sentido de atingir a felicidade e, pela memória afetiva, buscamos preservar o estado de felicidade pelas lembranças da dor causada pela infelicidade.

A felicidade é uma tensão dela mesma com seu oposto. Aceitar a oposição é uma atitude madura de autoconhecimento sem as fórmulas infantis utilizadas pelo caminho dos ensinamento da autoajuda, por exemplo. A filosofia, por outro lado, possivelmente não seria tão complicada ao homem médio, apenas seja desconfortante, porque ela não traz as soluções para o indivíduo como a mãe traz na bandeja o comprimido e a água para a dor do filho. A filosofia provoca a mudança, mas não garante a satisfação do desejo do indivíduo. Fica, portanto, a cargo do amadurecimento do indivíduo, que passará por diversos estados em sua vida, perceber-se feliz mesmo quando seus desejos não são satisfeitos a contento, uma vez que o mundo adulto - aqui significando amadurecimento e não idade - rechaça as infantilidades que devem permanecer na memória familiar dos primeiros anos, e somente nos primeiros anos.

*http://blogs.estadao.com.br/tragico-e-comico/2010/09/15/ajude-a-si-mesmo-pare-de-ler-auto-ajuda/

terça-feira, 2 de junho de 2015

Levantado do Chão - José Saramago

Existem romances que são a fotografia do próprio homem em toda sua dimensão humana, reflexo de seus anseios e de suas mazelas.

O grande escritor português José Saramago, sempre singular na feitura de sua literatura e muitíssimo original na trama, consegue na obra-prima Levantado do Chão registrar a incrível vida do homem do campo do início e meados do século passado, trazendo das profundezas da terra as chagas do homem pobre e rural.

Toda a dinâmica desse homem simples do campo, explorado pelos donos de terra, é revelada no livro mestre de Saramago. A narrativa das gerações da família Mau-Tempo é uma saga maravilhosa que desnuda a exploração do lavrador pelo latifundiário. A luta dos lavradores pobres de Portugal é a mesma encontrada no Brasil coevo à nação amiga. Inclusive, a leitura de Levantado do Chão me recordou uma outra, feita pela pena do escritor baiano Jorge Amado, Seara Vermelha. Essa obra também narra, de certo modo, a relação entre o homem interiorano do sertão e a terra árida que pisa; nela presenciamos as dores dos retirantes nordestinos em busca de uma vida melhor no litoral.

No livro de Saramago, a repressão do homem do campo que se mobiliza para combater a exploração e os salários de fome é narrada de forma sublime, não se limitando apenas ao clichê superficial  de exploração maniqueísta latifúndio/homem rural, o autor vai além, esmiúça as consequências íntimas que se desdobram nas relações humanas dos seres explorados. Saramago mostra ao público como as consequências da exploração resultam nos homens as chagas que não se cicatrizam com o tempo, pior, descarnam o homem, deixando-o como se fosse uma ferida única e aberta em carne viva, uma coisa só, cheia de pus e muito dolorida.

Toda a obra representa um documento cartorial, é a escritura da terra cujos donos são os trabalhadores da própria terra e não o proprietário latifundiário. Se você ainda não se convenceu da tese é porque ainda não leu Levantado do Chão.

Há também uma crítica à omissão da Santa Igreja Católica, representada pelos conselhos estapafúrdios do padre Agamedes. Seus ensinamentos surgem do nada por toda a obra e nada acrescentam à luta dos pobres miseráveis filhos de Deus. A omissão católica é uma chaga por todas as comunidades, amém... expressaria Saramago pela voz do narrador e suspirada após uma apóstrofe de padre Agamedes.

Saramago sempre surpreende. Enfrentar sua narrativa singular que muitas vezes nos parece confusa e cansativa é recompensadora. Se não são obrigatórios os finais felizes, os finais dos livros, ao menos, são obrigatórios nos romances. É assim que opera José Saramago, ele termina o livro como se deve terminar, algumas vezes com a redenção da personagem principal, outras com o ordinário da vida real. Com Levantado do Chão, não digo como termina; é a sua vez de descobrir e de se surpreender.

Boa leitura!